Depois de receber a notícia “você tem câncer de tireoide” sua vida vai girar em função deste assunto durante cerca de três meses, período em que você vai ser operado, fazer a dieta sem iodo, a iodoterapia e a PCI. Para se preparar para a jornada, veja abaixo o passo a passo do tratamento:

1. Diagnóstico

O câncer de tireoide geralmente não tem sintomas. Algumas pessoas notam um nódulo no pescoço ou dificuldade para engolir, outras descobrem ao fazer exames de rotina. O tumor é detectado por meio de um ultrassom e depois por meio de uma punção. O ultrassom é indolor, o médico passa um gel no seu pescoço e examina a área.

A punção é um pouco dolorosa porque é usada uma agulha para aspirar uma amostra do nódulo e depois avaliar se é um câncer ou não. Geralmente, quando é diagnosticado o câncer, o médico recomenda a retirada total da tireoide (tireoidectomia) seguida pela iodoterapia, além de monitoramento anual durante cinco anos.

Após o diagnóstico, é comum sentir medo, preocupação e instabilidade emocional porque a perda da segurança sobre a saúde pode ser vivida como um luto. É normal sentir-se sozinho e isolado. Os relacionamentos também mudam: alguns se fortalecem ainda mais, e outros se perdem. Todos estes ajustes são dolorosos, por isso é importante buscar apoio, se preciso. Mesmo assim, lembre-se que você aprenderá muito sobre si mesmo e poderá levar uma vida ainda melhor depois do tratamento.

2. Cirurgia

A cirurgia para retirada de tireoide é relativamente rápida e costuma exigir apenas uma ou duas noites no hospital. Em alguns casos, os médicos retiram também alguns gânglios na região do pescoço para garantir a retirada total do tumor. A cirurgia exige habilidade médica porque a tireoide é muito próxima das cordas vocais e das glândulas paratireoides, que controlam os níveis de cálcio no sangue. Depois de poucos dias o paciente começa a sentir-se melhor.

É comum sentir dor de garganta ou a voz fraca após a cirurgia, mas estes efeitos são temporários porque são causados pela entubação. O corte da cirurgia também dói por alguns dias, mas gradualmente a dor diminui e os movimentos ficam mais fáceis.

Existem alguns riscos na cirurgia da tireoide, como ocorre em qualquer cirurgia. Um deles é a mudança da voz, mas ela é muito rara e danos permantentes ao nervo ocorrem em apenas em cerca de 1% dos casos. Outra possível complicação é o dano a alguma das 4 paratireoides, glândulas que têm o tamanho de um grão de arroz.

Neste tipo de cirurgia, alguns pacientes têm um dano temporário a estas glândulas, o que reduz o nível de cálcio e pode causar formigamentos nos dedos dos pés, das mãos e ao redor da boca, ou ainda cãimbras musculares. Se você sentir estes sintomas, deve procurar o médico. A baixa de cálcio é tratada com suplementos de cálcio e vitamina D prescritos pelos médicos.


3. Iodoterapia

A iodoterapia tem como objetivo eliminar qualquer resíduo do câncer do organismo. Cerca de um mês depois de retirar o câncer de tireóide por meio de cirurgia, o paciente vai para um hospital onde ingere uma dose de iodo radioativo via oral, por meio de um canudinho. (O líquido é transparente e não tem gosto). Em seguida, ele fica em um quarto durante até três dias, e não pode receber visitas porque seu corpo emitirá radiação neste período.

Antes da internação, é preciso fazer uma dieta livre de iodo por cerca de 2 semanas. Assim, as células de tireoide que ainda existirem no corpo ficarão “sedentas” por iodo e absorverão todo o iodo radioativo, sendo destruídas. Durante a dieta também é preciso parar de tomar o hormônio tireoideano, o que gera vários sintomas de hipotireoidismo, como sonolência, cansaço, ganho de peso.

Hoje em dia, existe uma injeção de TSH Recombinante (a marca é Thyrogen, do laboratório Genzyme) que permite que o paciente continue a tomar hormônio tireoideano durante esta dieta, mas ela é cara. Você encontra mais informações sobre a dieta sem iodo neste link.

Depois da alta, o paciente continua por uma semana usando talheres, copos e toalhas separados e evitando o contato próximo com outras pessoas. Apenas depois de 15 dias é permitido beijar e manter relações. Isso ocorre porque o iodo radioativo é eliminado pela saliva, fezes e urina.

Para ver fotos de um quarto de iodoterapia, clique aqui.

4. Estar “hipo”

Caso não tome as injeções de TSH Recombinante, o paciente fica algumas semanas sem tomar o hormônio da tireóide antes da iodoterapia, o que vai causar todos os sintomas do hipotireoidismo (doença causada pela falta de hormônios). Os mais comuns são:

– cansaço, perda de energia, fraqueza
– excesso de sono
– inchaço
– dificuldade de concentração, perda de memória
– ganho de peso
– ansiedade, irritação, variação de humor
– depressão
– olhos, cabelos e pele secos; queda de cabelos
– mudança no ciclo menstrual
– dor nas juntas, câimbras
– intolerância ao frio
– constipação

De forma geral, o corpo ficará mais lento. Por isso é melhor evitar o consumo de bebidas alcoólicas porque o organismo terá mais dificuldade para processar o álcool. Também é recomendável manter uma alimentação saudável para evitar ganhar peso. Quando o consumo do hormônio é retomado, os sintomas diminuem em cerca de 4 semanas.

5. Pesquisa de Corpo Inteiro (PCI)

Alguns dias após a iodoterapia, o paciente faz uma Pesquisa de Corpo Inteiro (PCI) para saber se restou algum tumor. O paciente deita em uma maca, e uma máquina sobe e desce lentamente sobre ele, tirando “fotografias digitais”. O exame, que dura meia hora a uma hora, é indolor e a máquina nem encosta no corpo. Uma alternativa é fechar os olhos e pensar em coisas agradáveis para fazer o tempo passar mais rápido.

A PCI registra as áreas em que existe iodo. Como as células de tireoide “gostam” mais de iodo, isso mostra aos médicos se existe algum tumor em outras partes do corpo. É normal o exame indicar a presença de iodo na boca, no sistema digestivo e urinário porque o iodo ingerido durante a iodoterapia é eliminado pela saliva, urina e fezes. A concentração nestas partes é normal nos dias após a iodoterapia porque o iodo leva duas semanas para ser completamente eliminado.

Alguns médicos recomendam fazer a PCI uma vez por ano durante os cinco anos seguintes à cirurgia, enquanto outros fazem o controle apenas por meio de exames de sangue e de ultrassom. Pelo exame de sangue, é possível medir a quantidade de tireoglobulina no corpo. Esta substância funciona como um “marcador de tireoide”, ou seja, onde existe tireoglobulina existem células de tireoide. Em um paciente que tirou toda a tireoide, a tireoglobulina deve ser muito baixa, próxima de zero. Se ela começa a subir, é sinal de que o câncer pode ter voltado.

6. A vida após o câncer

Além das PCIs anuais, o paciente terá de fazer exames de sangue periódicos para avaliar seus hormônios. São necessários vários meses para acertar a dose de hormônio depois da cirurgia, por isso é preciso um pouco de paciência. Depois que a dose ideal é encontrada, o paciente segue sua vida normalmente, cada vez mais distante do que aconteceu, mas certamente mais preparado para saborear as delícias da vida.

(com informações da Thryvors – Grupo de Apoio Canadense ao Câncer de Tireoide e da Thyca – Associação dos Sobreviventes de Câncer de Tireoide dos EUA)